Os Lusíadas - Santillana

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Os Lusíadas
nos exames nacionais II
2010 — 1.ª chamada
GRUPO I
A Leia o texto seguinte, constituído por cinco estâncias de Os Lusíadas, transcritas do
Canto X. Em caso de necessidade, consulte o vocabulário que se apresenta.
Est. 144, v. 1 Assi foram cortando o mar sereno,
Com vento sempre manso e nunca irado,
Até que houveram vista do terreno
Em que naceram, sempre desejado.
Entraram pela foz do Tejo ameno,
E à sua pátria e Rei temido e amado
O prémio e glória dão por que mandou,
E com títulos novos se ilustrou.
Est. 146, v. 17 E não sei por que influxo de Destino
Não tem um ledo orgulho e geral gosto,
Que os ânimos levanta de contino
A ter pera trabalhos ledo o rosto.
Por isso vós, ó Rei, que por divino
Conselho estais no régio sólio posto,
Olhai que sois (e vede as outras gentes)
Senhor só de vassalos excelentes.
Est. 145, v. 9 Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dũa austera, apagada e vil tristeza.
Est. 147, v. 25 Olhai que ledos vão, por várias vias,
Quais rompentes liões e bravos touros,
Dando os corpos a fomes e vigias,
A ferro, a fogo, a setas e pelouros,
A quentes regiões, a plagas frias,
A golpes de Idolátras e de Mouros,
A perigos incógnitos do mundo,
A naufrágios, a pexes, ao profundo.
Est. 148, v. 33 Por vos servir, a tudo aparelhados;
De vós tão longe, sempre obedientes;
A quaisquer vossos ásperos mandados,
Sem dar resposta, prontos e contentes.
Só com saber que são de vós olhados,
Demónios infernais, negros e ardentes,
Cometerão convosco, e não duvido
Que vencedor vos façam, não vencido.
Vocabulário
ledo — contente.
contino — contínuo.
sólio — trono.
rompentes — que rompem, dilaceram ou investem.
plagas — praias.
Idolátras — idólatras, os que adoram ídolos.
Cometerão — acometerão.
Luís de Camões, Os Lusíadas, ed. prep. por A. J. da
Costa Pimpão, 5.ª ed., Lisboa, MNE/IC, 2003
Apresente, de forma clara e bem estruturada, as suas respostas
aos itens que se seguem.
1. Exponha sucintamente o assunto da primeira estância transcrita.
2. Justifique a interpelação ao Rei, relacionando-a com o sentido das estâncias 145 a 148.
3. Indique um efeito expressivo da enumeração presente na estância 147.
4. Refira dois dos sentimentos manifestados pelo poeta, ao longo do texto, e indique um
motivo que esteja associado a cada um deles.
Responda às questões no seu caderno, antes de passar aos cenários de resposta.
1. Exponha sucintamente o assunto da primeira estância transcrita.
As respostas devem contemplar os aspetos que a seguir se enunciam, ou outros considerados
relevantes.
Tópicos a considerar na exposição do assunto:
— viagem de regresso dos navegadores a Lisboa, com um estado de tempo favorável;
— entrega ao Rei dos triunfos alcançados, para glória régia e da Pátria.
2. Justifique a interpelação ao Rei, relacionando-a com o sentido das estâncias 145 a 148.
Justificação da interpelação:
— o Rei, que o é por desígnio divino, deve reconhecer o valor dos seus súbditos, que, como se
verificou no passado, reúnem qualidades para o fazerem «vencedor», isto é, para reacenderem na
Pátria o orgulho e a coragem.
Relação com o sentido das estâncias 145 a 148:
— constatação de um estado geral de desânimo e de abulia da Pátria — bem como de um
aviltamento de valores — incapacitante de uma atitude coletiva, enérgica e otimista;
— afirmação da excelência dos heróis valorosos cantados pelo poeta, por oposição à inércia e à
indignidade dos seus contemporâneos.
3. Indique um efeito expressivo da enumeração presente na estância 147.
A enumeração presente na estância 147 tem como efeitos expressivos:
— destacar, enfaticamente, a superior qualidade dos vassalos do Rei, que tudo conseguem suportar e
ultrapassar (fomes, guerras, condições climáticas adversas, confrontos religiosos, naufrágios, …);
— salientar os inúmeros perigos, na guerra e no mar, da aventura longínqua dos Descobrimentos.
4. Refira dois dos sentimentos manifestados pelo poeta, ao longo do texto, e indique um motivo que esteja
associado a cada um deles.
Sentimentos do poeta:
— desânimo, desalento, desencanto («Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho / Destemperada e a voz
enrouquecida» – vv. 9-10).
— estupefação, perplexidade («E não sei por que influxo de Destino / Não tem um ledo orgulho e geral gosto, /
Que os ânimos levanta de contino / A ter pera trabalhos ledo o rosto» — vv. 17-20).
— exaltação da energia criadora, da valentia (estâncias 147-148).
Motivos:
— a insensibilidade dos seus contemporâneos em reconhecerem o trabalho e o mérito do poeta («ver que venho
/ Cantar a gente surda e endurecida.» — vv. 11-12);
— o aviltamento dos valores que o poeta considera essenciais («No gosto da cobiça e na rudeza / Dua austera,
apagada e vil tristeza» – vv. 15-16);
— a ausência, nos seus contemporâneos, de força anímica coletiva, comparável à dos «vassalos excelentes»;
— o confronto das atitudes dos seus contemporâneos («gente surda e endurecida» que vive «No gosto da cobiça
e na rudeza / Dua austera, apagada e vil tristeza» — vv. 12, 15-16) com a bravura e a lealdade reveladas pelos
Portugueses, num passado ainda recente.
Os Lusíadas
nos exames nacionais I
2011 — 2.ª fase
B. Os versos transcritos abaixo formulam uma perspetiva do heroísmo presente n’Os
Lusíadas.
«Por obras valerosas que fazia,
Pelo trabalho imenso que se chama
Caminho da virtude, alto e fragoso,
Mas, no fim, doce, alegre e deleitoso»
Canto IX, 90
Luís de Camões, Os Lusíadas, edição de A. J. da Costa Pimpão,
Lisboa, MNE/IC, 2003
Com base na sua experiência de leitura, explicite o modo como, ao longo da viagem,
os navegadores portugueses se tornaram dignos de serem recebidos na «Ilha dos
Amores», fundamentando a sua exposição em dois exemplos significativos.
Escreva um texto de oitenta a cento e trinta palavras.
Observações:
1. Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, mesmo
quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única palavra,
independentemente dos algarismos que o constituam (ex.: /2011/).
2. Um desvio dos limites de extensão indicados implica uma desvalorização parcial (até cinco pontos) do texto produzido.
Cenário de resposta
Em Os Lusíadas, o heroísmo dos navegadores, recompensado na «Ilha dos Amores», é provado pelo
esforço e pelo sacrifício necessários à superação de múltiplos obstáculos:
— a passagem do Cabo das Tormentas (episódio do «Adamastor»);
— as condições meteorológicas adversas (a tromba-d’água, a tempestade, o fogo de Santelmo);
— a opinião contrária às Descobertas (episódio do «Velho do Restelo»);
— os ataques e as ciladas.
Aspetos de organização e correção linguística (F) ............................................. 12 pontos
Estruturação do discurso ..................................................................................... 7 pontos
Correção linguística............................................................................................. 5 pontos
Fator específico de desvalorização relativo ao desvio dos limites de extensão
Sempre que o examinando não respeite os limites relativos ao número de palavras indicados na
instrução do item, deve ser descontado um (1) ponto por cada palavra (a mais ou a menos), até ao
máximo de cinco (1 × 5) pontos, depois de aplicados todos os critérios definidos para o item.
Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em
branco, mesmo quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número
conta como uma única palavra, independentemente dos algarismos que o constituam (ex.: /2011/).
Nos casos em que da aplicação deste fator de desvalorização resultar uma classificação inferior a
zero pontos, é atribuída à resposta a classificação de zero pontos.

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